Por Igor Olandim.
Para dimensionar a gravidade do problema, são necessários apenas 10 dias para que a China produza todo o aço que o Brasil leva um ano inteiro para fabricar.
✅ O Excedente Chinês: O Motor da Crise Global
A China é o epicentro desse desequilíbrio e opera em uma escala incomparável. Com uma capacidade instalada que beira 1,2 bilhão de toneladas anuais, o país produz aproximadamente 1,0 bilhão de toneladas por ano. Contudo, seu consumo interno absorve apenas cerca de 800 milhões de toneladas.
Essa diferença gera um excedente estrutural colossal, que pode chegar a 400 milhões de toneladas. Para escoar esse volume massivo, o governo chinês implementa subsídios estatais que a OCDE aponta serem dez vezes maiores do que os concedidos por países desenvolvidos. É este excedente subsidiado que, ao buscar escoamento global a qualquer custo, provoca uma queda drástica nos preços (o valor médio de exportação da China caiu de US$ 580 em 2023 para US$ 460 neste ano), forçando a indústria brasileira a competir em condições insustentáveis.
✅ O Drama do Brasil: Capacidade e Importações
No Brasil, essa pressão se traduz em vulnerabilidade e desperdício de potencial produtivo.
O país possui uma capacidade instalada para o aço bruto de cerca de 50 milhões de toneladas anuais. No entanto, a produção real opera muito aquém, na faixa de 32 a 34 milhões de toneladas. Essa diferença resulta em uma capacidade ociosa alarmante, que varia entre 16 e 18 milhões de toneladas.
Enquanto o consumo aparente do mercado brasileiro se mantém estável, em cerca de 24,2 milhões de toneladas, a importação anual dispara, projetando-se em torno de 6 milhões de toneladas para 2024. O raciocínio é direto: o volume que o Brasil importa (6 milhões de toneladas) corresponde a aproximadamente um terço da capacidade que está ociosa no país. Em outras palavras, o Brasil tem capacidade de sobra para suprir internamente essa demanda, mas é impedido pela inviabilidade econômica de competir com o preço subsidiado chinês.
✅ Conclusão: O Imperativo da Defesa Imediata
O cenário atual expõe que a sobrevivência da indústria siderúrgica brasileira, pilar que inclui empresas centenárias e sustenta milhares de empregos, está diretamente ameaçada pelo desequilíbrio estrutural imposto pela China. Enquanto o gigante asiático inunda o mercado global com um excedente subsidiado de milhões de toneladas a preços artificialmente baixos, o Brasil vê sua própria capacidade produtiva ser desperdiçada.
Diante disso, a inação não é mais uma opção. O Brasil precisa urgentemente abandonar a vulnerabilidade e adotar um cerco tarifário comparável ao Modelo de Defesa Europeu, que impõe barreiras rigorosas como direitos antidumping de até 74%, tarifas de 50%, e cotas que limitam o volume importado. Além dessas medidas protetivas, o governo deveria também revisitar e adequar os impostos incidentes sobre o setor siderúrgico nacional. Somente com este conjunto de ações o setor poderá sobreviver, reverter a desvantagem econômica e proteger a indústria e o emprego de milhares de pessoas, tornando-o novamente atrativo aos investidores.

