5 – RESGATANDO A IMPORTÂNCIA DO EBIT

Por Igor Olandim.

NOÇÕES GERAIS

O EBIT é uma das métricas financeiras mais importantes na análise de empresas. A sigla vem do inglês Earnings Before Interest and Taxes, que significa Lucro Antes de Juros e Impostos (ou LAJIR em português).

Essencialmente, o EBIT representa o lucro operacional de uma empresa. Ele mede a capacidade do negócio de gerar resultado a partir de suas atividades principais, isolando a influência de dois fatores críticos:

  • Juros: Despesas ou receitas financeiras, que decorrem da estrutura de capital da empresa (como empréstimos e dívidas).
  • Impostos: A carga tributária aplicada sobre o lucro.

Ao desconsiderar juros e impostos, o EBIT fornece uma visão pura da eficiência operacional e da rentabilidade central do negócio.

COMO CALCULAR O EBIT

O EBIT é encontrado facilmente na Demonstração do Resultado do Exercício (DRE), conforme o diagrama a seguir demonstra:

DRE2024
Receita de Venda de Bens e/ou Serviços25.869.799
Custo dos Bens e/ou Serviços Vendidos-24.209.863
Resultado Bruto1.659.936
Despesas/Receitas Operacionais-1.160.360
Despesas com Vendas-420.001
Despesas Gerais e Administrativas-651.024
Outras Receitas Operacionais167.549
Outras Despesas Operacionais-552.739
Resultado de Equivalência Patrimonial295.855
Ebit 499.576
Resultado Financeiro-595.160
Resultado Antes dos Tributos sobre o Lucro-95.584
Imposto de Renda e Contribuição Social98.946
Corrente-68.575
Diferido167.521
Resultado Líquido das Operações3.362

Considerando o DRE acima, a fórmula para calcular o EBIT é:

EBIT=Faturamento Líquido−Custo dos Produtos Vendidos−Despesas Operacionais

EBIT: 25.869.799 – 24.209.863 – 1.160.360

EBIT: 499.576 o que equivale a um EBIT de 1,93%

O MODELO DINÂMICO E O EBIT

O EBIT (Lucro Antes de Juros e Impostos) desconsidera os custos financeiros (juros) e fiscais (impostos), mas é crucial notar que ele inclui a Depreciação e Amortização (D&A). O motivo para incluir D&A é que, apesar de não representarem saídas de caixa imediatas, esses desembolsos configuram um custo essencial: o desgaste e o consumo dos ativos utilizados nas operações diárias da empresa, desta forma, o EBIT se encaixa perfeitamente no Modelo Dinâmico, que foca nos fluxos e na dinâmica operacional de longo prazo, pois busca isolar o resultado intrínseco de sua capacidade de gerar lucro continuamente. Ele atinge esse objetivo ao focar estritamente na performance das atividades operacionais, sem a distorção causada pela estrutura de capital (juros) ou pelo ambiente tributário (impostos).

Podemos salientar e reiterar algumas características que corroboram a utilização do EBIT no Modelo Dinâmico:

  • Foco na Operação: O EBIT representa o lucro gerado pelas operações da empresa antes de quaisquer despesas ou receitas financeiras e antes da incidência do imposto de renda. Isso permite avaliar a eficiência com que a empresa utiliza seus ativos e administra seus custos para gerar lucro em suas atividades principais.
  • Remoção de Distorções Financeiras: As despesas e receitas financeiras (juros) são fortemente influenciadas pela estrutura de capital (nível de endividamento e taxas de juros), que é uma decisão de financiamento, e não está diretamente ligada à eficiência operacional. Ao excluir os juros, o EBIT oferece uma visão mais clara do desempenho operacional, independentemente da forma como a empresa é financiada.
  • Independência da Legislação Tributária: Os impostos sobre o lucro variam de acordo com a legislação fiscal de cada jurisdição. Eles podem ser influenciados por incentivos fiscais ou regimes tributários específicos. Ao excluir os impostos, o EBIT permite comparar a rentabilidade operacional de empresas em diferentes países ou sob diferentes regimes tributários de forma mais equitativa.
  • Conexão com o Ciclo Operacional: O EBIT está diretamente relacionado com as receitas e os custos operacionais, elementos centrais do ciclo operacional da empresa e, consequentemente, do foco da análise dinâmica. Um EBIT robusto indica que a empresa está gerando valor em suas atividades principais, o que é essencial para sustentar o ciclo operacional e gerar caixa.

ONDE USAR O EBIT?

Na análise dinâmica, o EBIT é uma ferramenta valiosa para entender a capacidade da empresa de gerar lucro a partir de suas operações ao longo do tempo e em relação ao seu ciclo operacional. Podemos usá-lo para:

  • Análise da Rentabilidade Operacional: Acompanhar a evolução do EBIT ao longo de diferentes períodos (trimestres, anos) permite avaliar a tendência da rentabilidade das operações. Um EBIT crescente indica melhoria na eficiência operacional, enquanto um decrescente pode sinalizar problemas na gestão de custos ou na geração de receita.
  • Cobertura de Custos Operacionais: O EBIT pode ser comparado com os custos operacionais fixos para avaliar a capacidade da empresa de cobrir suas despesas estruturais com o lucro gerado pelas atividades principais.
  • Análise da Relação com o Capital de Giro: Um EBIT consistente e crescente é fundamental para sustentar a Necessidade de Capital de Giro (NCG) e financiar o ciclo operacional. Um EBIT insuficiente pode levar a empresa a depender mais de financiamento externo para manter as operações.
  • Avaliação da Geração de Caixa Operacional: Embora o EBIT não seja um indicador de fluxo de caixa, ele é um ponto de partida importante para entender a capacidade da empresa de gerar caixa operacionalmente. Adicionando de volta ao EBIT as despesas não caixa (como depreciação e amortização) e ajustando pelas variações no capital de giro, chega-se ao Fluxo de Caixa Operacional.
  • Análise de Cenários e Projeções: O EBIT é frequentemente utilizado em projeções financeiras e análises de cenários para avaliar o impacto de diferentes estratégias operacionais na rentabilidade.
  • Comparação com Outros Indicadores: O EBIT pode ser comparado com outros indicadores dinâmicos, como o Ciclo Econômico e o Ciclo Financeiro, para obter uma visão mais completa da eficiência operacional e financeira. Por exemplo, um ciclo econômico curto combinado com uma margem EBIT alta sugere uma operação eficiente e rentável.

Em suma, o Modelo Dinâmico resgata a importância do EBIT ao reconhecê-lo como um indicador essencial da capacidade intrínseca da empresa de gerar lucro a partir de suas atividades operacionais, isolando os efeitos das decisões financeiras e tributárias. Sua análise ao longo do tempo e em relação a outros indicadores dinâmicos fornece insights valiosos sobre a saúde financeira e a eficiência operacional da empresa.

MENSURAÇÃO DO ENDIVIDAMENTO

Apreciamos muito a utilização do EBIT para a mensuração do endividamento da empresa. A razão entre EBIT e Dívida Líquida (DL) é uma ferramenta essencial para entender a capacidade da empresa de honrar seus compromissos. A DL representa o endividamento total após deduzir o caixa e equivalentes que podem ser usados para quitar obrigações imediatamente e pode ser calculada pela seguinte fórmula:

Dívida Líquida = Empréstimos de Curto e Longo Prazo – (Caixa + Bancos + Aplicações Financeiras de Curto Prazo e Longo Prazo)

A Métrica para se apurar o grau de endividamento de uma empresa é dada pela fórmula:

Grau de Endividamento = Dívida Líquida/Ebit        

Sendo que tal indicador mede quantos anos de lucro operacional a empresa precisaria gerar para pagar toda a sua Dívida Líquida, assumindo que o EBIT (Lucro Antes de Juros e Impostos) se mantenha constante.

O resultado desse cálculo é um número de vezes (x), que reflete o grau de alavancagem operacional da empresa:

  • Resultado Baixo (Ex: 1x a 2x): Indica um baixo risco de crédito. A empresa gera um lucro operacional robusto em relação à sua dívida. Ela levaria um ou dois anos para quitar o passivo com seu lucro operacional, o que demonstra alta capacidade de cobertura.
  • Resultado Moderado (Ex: 2x a 3x): Nível de alavancagem ainda saudável para a maioria dos setores maduros. A empresa tem boa capacidade de pagamento, mas é mais sensível a crises ou reduções no lucro.
  • Resultado Alto (Ex: Acima de 3x ou 4x): Indica um alto risco de crédito. A empresa está muito alavancada e dependerá de muitos anos de lucros estáveis para pagar suas dívidas. Isso aumenta a vulnerabilidade a choques econômicos e exige atenção do analista.

EBIT ou EBITDA? QUAL É O MAIS EFICIENTE?

No mercado financeiro, é comum que a avaliação do endividamento seja realizada por meio do EBITDA (Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização). Embora essa métrica seja amplamente utilizada, cada metodologia de análise de dívida, utilizando o EBIT ou o EBITDA, oferece uma perspectiva distinta, dependendo do objetivo central da avaliação.

Dívida Líquida/EBITDA – Foco na Comparabilidade: O indicador Dívida Líquida/EBITDA (DL/EBITDA) é reconhecido como uma ferramenta poderosa para a comparabilidade entre empresas de portes e setores variados. É a métrica padrão em análises peer-to-peer e modelos de valuation. Essa utilidade decorre do fato de o EBITDA expurgar a Depreciação e Amortização (D&A), eliminando as distorções que poderiam ser causadas por diferentes políticas contábeis de depreciação ou pela idade heterogênea dos ativos entre as empresas.

Dívida Líquida/EBIT – Foco na Sustentabilidade e Risco de Longo Prazo: Em contrapartida, o indicador Dívida Líquida/EBIT (DL/EBIT) é a opção preferível para uma análise de risco de crédito mais conservadora e de longo prazo.

Ao utilizar o EBIT – que representa o lucro operacional após a Depreciação e Amortização (D&A) – o analista é forçado a considerar o custo real e recorrente de manutenção e reposição dos ativos (o CAPEX de manutenção) que a empresa inevitavelmente terá que arcar no futuro. O uso do EBIT confere um grau de conservadorismo superior, pois a Dívida Líquida está sendo confrontada com o lucro que já descontou o desgaste e o consumo dos ativos.

Ao levar em conta a D&A como uma despesa operacional recorrente, o DL/EBIT avalia se o lucro gerado pela empresa é suficiente não apenas para pagar juros e amortizar o principal da dívida, mas também para manter sua capacidade operacional e produtiva no longo prazo.

Concluindo, o Dívida Líquida/EBIT é a métrica de escolha para quem busca uma avaliação detalhada do risco de crédito e da sustentabilidade operacional de longo prazo.

O EBIT E A PERGUNTA CHAVE NA ANÁLISE DINÂMICA

O EBIT é fundamental para a Análise Dinâmica, pois representa o lucro operacional líquido do custo de desgaste dos ativos, fornecendo uma medida de rentabilidade mais realista da operação. Isso permite avaliar o risco de a empresa não gerar caixa suficiente para, simultaneamente, honrar suas dívidas e reinvestir no seu capital de giro.

Como o foco da Análise Dinâmica de Balanços é a sustentabilidade, o cerne do Modelo Dinâmico pode ser sintetizado na seguinte pergunta:

O lucro operacional da empresa, após cobrir o desgaste de seus ativos, é suficiente para sustentar a operação (financiar a NCG), honrar seus compromissos (dívidas) e manter um equilíbrio financeiro saudável (Capital de Giro)?

Para fins de fixação conceitual, a pergunta-chave pode ser decomposta:

“O lucro operacional da empresa, após cobrir o desgaste de seus ativos…”

Isto é, o EBIT representa a verdadeira força da atividade operacional, isolada de juros (financiamento) e impostos (tributação). O “desgaste dos ativos” é a Depreciação/Amortização, que já está descontada do Lucro Operacional.

“…é suficiente para sustentar a operação (financiar a NCG) …”

A NCG (Necessidade de Capital de Giro) é o investimento necessário para custear o ciclo financeiro (estoques, contas a receber, etc.). O lucro operacional deve ser robusto o suficiente para financiar o eventual aumento dessa necessidade.

“…honrar seus compromissos (dívidas)…”

Refere-se ao pagamento dos juros e, principalmente, do principal das dívidas. O lucro operacional deve ser o ponto de partida para garantir que o serviço da dívida não comprometa a liquidez.

“…e manter um equilíbrio financeiro saudável (Capital de Giro)?”

Refere-se à capacidade de manter uma estrutura de capital onde o Capital de Giro Próprio/Líquido (CDG) seja adequado para financiar a NCG, garantindo a solidez e a segurança financeira.

Por todas essas razões, o EBIT é a métrica preferencial em avaliações isoladas e não comparativas, com foco na sustentabilidade de longo prazo da empresa.

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