O mercado siderúrgico brasileiro opera sob uma armadilha estrutural montada a milhares de quilômetros daqui. Entre 2005 e 2025, enquanto a produção nacional de aço permaneceu rigorosamente estagnada, em torno de 32 milhões de toneladas anuais, a China saltou de 353 milhões para assombrosos 1005 milhões de toneladas. A fatia brasileira no bolo global encolheu de 3% para menos de 2%, enquanto o apetite asiático passou a abocanhar 54% de todo o aço forjado no planeta.
A desaceleração imobiliária chinesa não reduziu a capacidade dos fornos asiáticos, apenas redirecionou a fúria exportadora de Pequim para os mercados periféricos. O Brasil virou uma represa com comportas abertas. Em 2005, a produção brasileira representava perto de 9% da produção da China. Vinte anos depois, esse volume caiu para irrisórios 3%.
Essa assimetria brutal dita a dinâmica de faturamento. Em 2025, a Gerdau reportou faturamento consolidado de R$ 69.858.532 mil, enquanto a Usiminas estacionou em R$ 26.263.450 mil. No primeiro semestre de 2026, a distância se escancarou ainda mais. A Gerdau alcançou uma receita líquida de R$ 34.586.293 mil frente a modestos R$ 12.002.367 mil da siderúrgica mineira. A Usiminas, que no passado ostentava metade da escala de sua concorrente, hoje mal representa um terço do tamanho da operação gaúcha.
A ilusão do caixa confortável contra a tração operacional
Considerando a metodologia de Fleuriet ambas as companhias exibem a clássica Estrutura Tipo 2 (Sólida), caracterizada por Capital de Giro positivo, Necessidade de Capital de Giro positiva e Saldo de Tesouraria folgado. No fechamento do primeiro semestre de 2026, a Usiminas apresentava um Saldo de Tesouraria de R$ 6.647.971 mil para uma Necessidade de Capital de Giro de R$ 6.355.328 mil e Capital de Giro de R$ 13.003.299 mil. A Gerdau registrava Saldo de Tesouraria de R$ 4.810.744 mil, NCG de R$ 14.370.214 mil e Capital de Giro de R$ 19.180.958 mil.
Olhar apenas o cofre da Usiminas e concluir que sua gestão é exemplar é um equívoco perigoso. Esse excedente de tesouraria de R$ 6.647.971 mil não é virtude, é sintoma de letargia. A empresa opera com o freio de mão puxado. Uma planta industrial de grande porte que fatura pouco simplesmente não consome giro em estoques e duplicatas. O caixa parece farto unicamente porque a fábrica é incapaz de queimar energia operacional em vendas reais. A Gerdau, em contrapartida, gira R$ 14.370.214 mil de NCG porque roda motores a pleno vapor. A musculatura existe para ser utilizada, não para atrofiar guardada no banco.
O mesmo contraste aparece na estrutura de dívida. Na Gerdau, os empréstimos e financiamentos de longo prazo somam R$ 12.928.339 mil, sendo responsável por 67,40% do seu CDG. Sua dívida bruta atinge R$ 13.558.089 mil e a dívida líquida marca R$ 8.117.595 mil. Com um EBIT semestral de R$ 4.166.316 mil, o indicador Dívida Líquida sobre EBIT semestral marca 1,9x. Na Usiminas, a dívida bruta é de R$ 6.223.308 mil, mas os empréstimos de longo prazo de R$ 6.048.722 mil representam apenas 46,52% do CDG, resultando em uma dívida líquida negativa de R$ 599.249 mil e indicador de -0,6x frente ao seu EBIT semestral de R$ 953.597 mil. A ausência de dívida líquida na Usiminas compra tranquilidade momentânea de tesouraria, mas não garante perenidade industrial.
A cortina de fumaça atinge o ápice na linha de lucratividade líquida. No primeiro semestre de 2026, a Usiminas espantou desavisados ao estampar uma margem líquida de 10% (lucro líquido controlador de R$ 1.153.809 mil), superando a margem de 7% da Gerdau (lucro de R$ 2.455.840 mil). Um milagre operacional? Longe disso. O Custo das Mercadorias Vendidas (CMV) da Usiminas devorou 87,38% de sua receita líquida, deixando a margem operacional (EBIT) murcha em 7,95%. A Gerdau conteve o CMV em 85,19% e produziu margem EBIT de 12,05%. O resultado da Usiminas foi inflado artificialmente por um resultado financeiro líquido positivo de R$ 65.196 mil (contra despesa financeira líquida de R$ 628.236 mil na Gerdau) e pela ativação de cerca de R$ 380 milhões em impostos diferidos.
Modelo fabril, escudos tarifários e a rota tecnológica
As duas companhias dividem o mesmo rótulo setorial, mas operam negócios industriais inteiramente distintos. A Usiminas depende da rota dos aços planos (chapas e bobinas destinadas a eletrodomésticos, linha branca e indústria automotiva). Se as montadoras automobilísticas brasileiras perdem mercado para carros elétricos chineses montados ou se a fábrica de fogões importa chapas laminadas a preço de custo asiático, a Usiminas sangra imediatamente. A Gerdau concentra sua força nos aços longos (vergalhões, fio-máquina e perfis estruturais voltados à construção civil e infraestrutura pesada). Ninguém importa vergalhão da Ásia em pequenos lotes com a mesma fluidez com que se transportam bobinas de alta precisão.
A rota tecnológica reforça esse abismo de eficiência. As usinas da Usiminas em Ipatinga e Cubatão dependem do modelo clássico integrado. Altos-fornos gigantescos exigem alimentação contínua de carvão mineral (coque importado) e minério de ferro. É um processo rígido, com custo fixo astronômico, que não aceita desligamento parcial sob pena de destruição refratária. A Gerdau optou pelo modelo de mini-mills semi-integradas. A companhia alimenta fornos elétricos a arco (EAF) com sucata ferrosa reciclada, consolidando-se como a maior recicladora da América Latina. Trata-se de um sistema ágil, energeticamente eficiente, com partidas e paradas flexíveis que se moldam à demanda imediata sem carregar estoques colossais.
No quesito sobrevivência geográfica, o contraste torna-se definitivo. A Usiminas destina 85% de suas vendas ao mercado doméstico brasileiro e apenas 15% ao exterior. Sua unidade de mineração (Musa), encravada em Serra Azul, padece com o custo proibitivo do frete marítimo internacional, espremida pelas tensões no Oriente Médio e pela falta de contratos logísticos de longo prazo. A mineração da Usiminas sobrevive quase que exclusivamente para alimentar o consumo interno cativo.
A Gerdau fatura 50% de sua receita fora das fronteiras brasileiras. Enquanto a ociosidade da capacidade instalada da siderurgia no Brasil gravita em perigosos 30% em ambas as empresas, as plantas da Gerdau nos Estados Unidos rodam com ociosidade média de apenas 15%. A operação norte-americana da Gerdau funciona como uma fortaleza regulatória, resguardada pelas severas tarifas alfandegárias que a Casa Branca impõe contra o produto chinês. É um hedge natural que empresa puramente doméstica nenhuma consegue replicar.
A euforia recente vista nas cotações de USIM3, alimentada no passado por especulações vazias de fechamento de capital por parte da Ternium, desmancha-se rápido quando confrontada com o chão de fábrica. Quem busca trades táticos de curto prazo pode até capturar repiques gráficos em ambas as ações. O investidor focado em qualidade econômica e solidez estratégica, contudo, precisa encarar a realidade dos fatos.
A Gerdau detém escala de 14 milhões de toneladas anuais, tecnologia superior, proteção cambial e defesa contra a invasão chinesa. A Usiminas, com seus 9,5 milhões de toneladas e dependência quase total do mercado interno, permanece refém das tempestades globais. Se o aço nacional atravessa sua maior provação em décadas, apenas uma dessas companhias construiu paredes grossas o suficiente para não tombar quando o vento soprar mais forte.
Preferimos Gerdau em detrimento de Usiminas.
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