Por Igor Olandim
O rebaixamento da Suzano pelo Bank of America (BofA) acendeu o sinal de alerta no mercado, provocando o tradicional efeito manada onde outras instituições tendem a seguir o mesmo diagnóstico. No entanto, para compreender se a companhia de fato perdeu seus fundamentos, é preciso afastar o ruído macroeconômico e analisar a real estrutura econômico-financeira da empresa através da metodologia Fleuriet.
A análise dos indicadores dinâmicos da Suzano revela uma estrutura financeira classificada como Sólida (Grau de Risco 2). Em março de 2026, a companhia apresentou os seguintes valores:
Necessidade de Capital de Giro (NCG): Positiva em R$ 11,3 bilhões.
Saldo de Tesouraria (ST): Positivo em R$ 18,9 bilhões.
Essa configuração demonstra que o Capital de Giro da empresa é mais do que suficiente para suportar a NCG, gerando uma folga financeira expressiva que se reflete no saldo de tesouraria robusto. A Suzano opera como uma verdadeira “fábrica de liquidez”, mantendo um colchão de caixa historicamente elevado: eram R$ 16,4 bilhões em 2023, R$ 22,1 bilhões em 2025 e R$ 18,9 bilhões no primeiro trimestre de 2026.
Ao abrirmos as contas da NCG, observa-se uma gestão operacional extremamente ajustada. Enquanto o faturamento saltou de R$ 39,7 bilhões em 2023 para R$ 50,1 bilhões em 2025 (um crescimento de 26%), a NCG subiu apenas 8%, passando de R$ 7,3 bilhões para R$ 7,9 bilhões.
O grande trunfo dessa eficiência reside no contas a receber. Em 2023, com faturamento menor, o saldo a receber era de R$ 6,8 bilhões. Em 2025, mesmo faturando mais, esse saldo recuou para R$ 6,5 baseando-se na redução do prazo médio de recebimento, que despencou de 63 para 48 dias. A empresa conseguiu “apertar” seus clientes, otimizando o ciclo financeiro e evitando a imobilização desnecessária de recursos no giro.
O Capital de Giro (CDG) expandiu cerca de 27% entre 2023 e março de 2026, crescendo R$ 7 bilhões. A origem desse incremento estratégico está no Ativo Realizável a Longo Prazo, especificamente nos ativos biológicos (as florestas de eucalipto), que saltaram de R$ 25,1 bilhões para R$ 40,4 bilhões.
A Suzano investiu mais de R$ 15 bilhões em suas florestas nos últimos dois anos, além de R$ 5 bilhões no imobilizado (fábricas e estrutura). Para financiar esse crescimento de R$ 20 bilhões a longo prazo, a diretoria buscou recursos majoritariamente via empréstimos e financiamentos de longo prazo, que aumentaram em R$ 15 bilhões no período.
Se a operação é eficiente, a estrutura de capital carrega o principal ponto de atenção da empresa. A dívida líquida da Suzano encerrou o período em patamares elevados, na casa dos R$ 68,3 bilhões. O indicador Dívida Líquida/EBITdeteriorou-se de forma contínua, saindo de 4,58 vezes em 2023 para 6,73 vezes em março de 2026. Em termos práticos, a companhia precisaria de quase 7 anos de geração de caixa operacional integral para quitar suas obrigações líquidas.
Contudo, o perfil dessa dívida mitiga o risco de liquidez imediato:
Prazo: 96% do endividamento está concentrado no longo prazo. Os empréstimos de curto prazo somam apenas R$ 3,4 bilhões, amplamente cobertos pelos R$ 12,1 bilhões em caixa e R$ 10,1 bilhões em aplicações financeiras.
Moeda e Custo: 88% da dívida total foi captada no mercado internacional. O custo médio de captação dessa dívida em moeda estrangeira gira em torno de 5% ao ano. Se esse endividamento estivesse atrelado aos juros domésticos brasileiros (Selic), o custo anual de rolagem seria proibitivo, demandando entre R$ 9 bilhões e R$ 11 bilhões, enquanto o desenho atual consome cerca de R$ 5,5 bilhões anuais.
O resultado financeiro da Suzano é historicamente volátil devido ao hedge cambial e à exposição cambial tanto das receitas quanto da dívida. No primeiro trimestre de 2026, as despesas financeiras somaram R$ 1,8 bilhão contra receitas financeiras de R$ 486 milhões. Isolando o efeito do hedge, o balanço operacional bruto carrega um custo de juros real perfeitamente administrável pela escala da companhia.
O risco soberano da Suzano não reside na sua saúde financeira interna, mas sim na sua forte exposição a uma única commodity: a polpa de celulose. O mercado global enfrenta uma expansão de oferta na América Latina e uma transição estrutural na China, que deixa de ser estritamente importadora para se tornar autossuficiente e exportadora em determinados segmentos.
Com a demanda global estável e a oferta em ascensão, a tendência é de preços deprimidos para a celulose nos próximos dois anos. Esse cenário comprime as margens da Suzano, elevando o custo dos produtos vendidos (CMV) em termos proporcionais e reduzindo a margem EBIT para a faixa dos 15%, longe dos picos históricos de 30%.
A tese de crescimento acelerado e a distribuição de dividendos pujantes ficam em segundo plano, já que a Suzano historicamente prioriza a desalavancagem e o reinvestimento florestal. O investidor focado em fluxo de caixa imediato se afasta, enquanto o valor de longo prazo depende da capacidade do mercado global de depurar as fábricas obsoletas do hemisfério norte para reequilibrar os preços da commodity.
Por outro lado, em maio de 2026, o Bank of America rebaixou a recomendação da Suzano de compra para neutra (cortando o preço-alvo de R$ 82 para R$ 57), um movimento que acendeu o sinal de alerta no mercado e provocou o tradicional efeito manada onde outras instituições tendem a seguir o mesmo diagnóstico. O banco justificou a decisão com base em uma leitura estritamente focada no ciclo global de commodities, penalizando o momento em que as linhas de balanço da companhia se encontram mais esticadas e apontando para um cenário de preços deprimidos para a polpa de celulose diante do excesso de oferta estrutural no mercado internacional.
No entanto, o rebaixamento peca por tratar a alavancagem elevada e a pressão nas margens como uma deterioração inesperada, ignorando que essa situação já era antiga e amplamente conhecida pelo investidor atento, que há trimestres acompanha o pico do plano de investimentos da empresa (Capex) em ativos biológicos. Para compreender se a companhia de fato perdeu seus fundamentos ou se o mercado apenas reagiu ao ruído tardio de uma nota de crédito, é preciso afastar o clamor macroeconômico e analisar a real estrutura econômico-financeira da empresa através da metodologia Fleuriet.
Particularmente, não percebo nenhum dado novo e a informação de se investir ou não em Suzano deve desconsiderar esse ruído momentâneo. As cartas já estão dadas há meses.
Bons Investimentos
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