Por Igor Olandim
O mercado financeiro opera sob uma lógica que, para o observador leigo, beira o misticismo: bilhões de dólares podem ser “criados” em uma terça-feira de euforia e “destruídos” em uma quarta-feira de pânico.
Mas e se eu te disser que, ao invés de destruição de valor, pode estar acontecendo uma transferência de valor?
Para entender os conceitos de destruição ou transferência de valor, precisamos primeiro despir o capital de sua roupagem numérica e enxergá-lo como o que ele realmente é: um sistema de precificação de expectativas sobre o futuro.
Quando a bolsa cai de forma generalizada, o fenômeno mais imediato não é a perda de dinheiro físico, mas a implosão das expectativas. O valor de um ativo financeiro nada mais é do que o consenso social sobre quanto aquele direito de propriedade valerá amanhã. Se o consenso muda, o preço ajusta-se instantaneamente, criando a percepção de que a riqueza evaporou.
Eu gosto muito da famosa frase “Preço é o que você paga, valor é o que você leva”, imortalizada por Warren Buffett. Esta frase sintetiza o maior abismo existente no mercado financeiro: a diferença entre a etiqueta e a essência de um ativo.
Essa máxima é o fundamento da sobrevivência em ciclos de queda. O preço é uma variável barulhenta, influenciada por emoções, fluxos de caixa de curto prazo, pânico sistêmico e a urgência de quem precisa vender. Ele é o valor nominal que sai da sua conta no ato da transação.
Já o valor é o que permanece quando as luzes da bolsa se apagam. É a capacidade de uma usina gerar energia, de uma marca fidelizar clientes ou de uma infraestrutura gerar caixa por décadas. É a riqueza intrínseca que justifica a existência do ativo.
Raros são os momentos em que o preço de um ativo é igual ao seu valor.
Em um cenário de queda do preço de uma ação, entender essa frase é a chave para distinguir a destruição da transferência:
A destruição real ocorre quando uma mudança no comportamento da sociedade, a forma como a empresa é administrada ou uma inovação tecnológica torna um ativo produtivo irrelevante, fazendo com que o capital investido ali deixe de realizar trabalho econômico.
A transferência de valor ocorre quando investidores de curto prazo vendem seus ativos com grande desconto, geralmente por pressão, para investidores de longo prazo. O negócio continua sendo lucrativo, mas o lucro futuro sai das mãos de quem vendeu na baixa e passa para quem teve capital para comprar barato.
Para evidenciar este fenômeno, nada melhor do que recordar o que aconteceu na época da COVID-19.
O advento da COVID-19, em março de 2020, não foi apenas um evento de mercado, foi uma ruptura na continuidade do tempo econômico. Em poucos dias, o valor de mercado das maiores corporações do planeta despencou. A pergunta que pairava no ar era se o capital estava sendo incinerado pela doença ou se estava apenas procurando um novo porto seguro para atracar.
Para entender a transferência de valor, o setor elétrico brasileiro é o exemplo acadêmico perfeito. Quando o isolamento social foi decretado, as ações de empresas como a Engie, Taesa e Cemig, por exemplo, desabaram. O mercado, em seu primeiro impulso de pânico, precificou uma destruição de valor baseada no medo da inadimplência generalizada e na queda do consumo industrial.
No entanto, o que ocorreu foi uma transferência temporal de riqueza. A necessidade humana por eletricidade não desapareceu, ela apenas mudou de endereço. O consumo que saía das fábricas e escritórios migrava para as residências. A infraestrutura física, as torres de transmissão e as turbinas, permanecia intacta, funcional e essencial.
Neste cenário, quem vendeu suas ações de empresas elétricas no fundo do poço, em 2020, sofreu uma perda nominal irreversível. Esse investidor transferiu seu direito de receber dividendos futuros para aqueles que entenderam que o “valor” da energia era perene. A empresa sofreu no balanço de curto prazo, mas seu valor intrínseco estava protegido pela essencialidade do serviço.
As elétricas recuperaram-se rapidamente porque seu modelo de negócio é baseado em contratos de longo prazo e ativos físicos reais que não se tornam obsoletos por um vírus. A “destruição” vista nas telas em 2020 foi uma ilusão de ótica financeira causada pela falta de liquidez e pelo medo do desconhecido.
Assim que a poeira baixou, o capital que havia fugido para o dólar e para o ouro percebeu que as elétricas estavam baratas demais para serem ignoradas. O movimento de volta gerou uma valorização que, para muitos, compensou as perdas da queda inicial. O valor nunca saiu da empresa; ele apenas mudou de dono durante o período de desconto forçado pelo pânico.
A Destruição de Valor Efetiva: O Caso das Lojas de Departamento e Escritórios
Diferente das elétricas, outros setores enfrentaram a destruição de valor efetiva, onde o mundo mudou de tal forma que o modelo de negócio anterior deixou de fazer sentido. O exemplo mais dramático é o de grandes redes de varejo físico que dependiam exclusivamente do fluxo em shoppings ou de empresas focadas em propriedades de escritórios comerciais (Real Estate).
Empresas ou grandes redes que não tinham presença digital robusta viram seu valor ser destruído. A pandemia não apenas fechou suas portas temporariamente; ela ensinou o consumidor a comprar online de forma definitiva e, desta forma, o valor dessas lojas, seus pontos comerciais caros e estoques físicos, tornou-se um passivo, não um ativo.
Aqui, o valor foi destruído porque a utilidade marginal daquelas lojas físicas diminuiu permanentemente para a sociedade. O capital investido naquelas estruturas físicas não consegue mais gerar o mesmo retorno que gerava em 2019. Quando uma empresa desse setor quebra ou reduz seu tamanho drasticamente, a riqueza que estava ali não foi transferida, ela foi desintegrada pela obsolescência.
O Setor Aéreo: Entre a Sobrevivência e a Desintegração
O setor aéreo é outro exemplo de destruição de valor massiva. Empresas como a LATAM ou a Avianca entraram em processos de recuperação judicial. Diferente das elétricas, os aviões parados no pátio geram custos fixos gigantescos sem receita. A destruição ocorreu na queima de caixa imediata para manter as operações mínimas e na dívida astronômica contraída para não falir.
Mesmo com a volta das viagens, o valor para o acionista original foi, em muitos casos, destruído pela diluição de capital. O valor da empresa pode ter se mantido pela infraestrutura, mas o valor da ação foi incinerado. Houve uma transferência forçada de riqueza dos acionistas para os credores (bancos e governos) que socorreram as companhias.
A Mudança do Paradigma de Valor
A pandemia provou que o valor é dinâmico. A destruição ocorre quando o ativo se torna um “peso morto” em uma nova realidade. Já a transferência ocorre quando o ativo é resiliente, mas o mercado entra em um surto de miopia de curto prazo. As elétricas são o exemplo da resiliência (valor transferido por pânico), enquanto o varejo físico tradicional e certas áreas de Real Estate comercial são exemplos de destruição (valor perdido por mudança de hábito).
Economicamente, a COVID-19 foi um processo de purgação. Ela destruiu o valor do que era ineficiente e transferiu o poder econômico para as empresas que dominavam a logística e a tecnologia. O dinheiro que saiu do cinema não foi para outro cinema; ele foi transferido para a infraestrutura de streaming e para as empresas de fibra óptica.
Conclusão
A análise do investidor deve ser focada em identificar o tipo de queda que está enfrentando. Se os seus ativos estão sofrendo um ataque de obsolescência estrutural, o tempo é seu inimigo e a destruição é inevitável. Se o ataque é apenas de falta de liquidez, o tempo é seu maior aliado e o que você vê é uma janela de transferência.
É por isso que muitos gestores evitam setores com risco de disrupção, como o varejo tradicional, preferindo setores perenes. Eles buscam ativos onde a utilidade para o mundo é inquestionável, garantindo que qualquer queda de preço seja apenas uma oportunidade de captura de valor, e não um adeus ao patrimônio.
A lição que fica é que o valor de uma empresa não está no que ela possui em máquinas ou prédios, mas na relevância do que ela oferece para a vida das pessoas. Se a empresa continua necessária, mas o mercado está em pânico, o valor está sendo dado de presente para quem souber olhar além da tela do computador.
Na bolsa, como na vida, quase nada se perde por completo; o que existe é uma constante transformação e redistribuição. O segredo é garantir que você não esteja segurando algo que o mundo decidiu descartar, mas sim ativos que, independentemente do preço de hoje, continuarão sendo os motores da economia de amanhã.
É precisamente por isso que a Berkshire Hathaway prioriza ativos de valor com fundamentos inabaláveis. Ao investir em empresas cuja utilidade é indispensável, como energia, seguros e consumo essencial, Buffett garante que o pânico do mercado não passe de ruído, criando janelas perfeitas para a transferência de riqueza.
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