Por Igor Olandim.
Na divulgação do balanço do quarto trimestre de 2025, o Banco do Brasil apresentou números que, embora sólidos em sua maioria, trouxeram um dado que acendeu o sinal de alerta entre os analistas: o índice de inadimplência acima de 90 dias saltou para 5,17%.
Como bancos detestam surpresas negativas em seus indicadores de risco, a gestão do BB precisou agir rapidamente para isolar o problema e explicar ao mercado que esse aumento não refletia a saúde de toda a sua carteira.
O banco revelou que, se não fosse por um “evento específico” envolvendo R$ 3,6 bilhões em um único caso do setor de atacado, o índice de inadimplência teria permanecido estável em 4,88%. Embora o nome da empresa tenha sido omitido no relatório oficial, a confirmação de que a Braskem era a fonte desse rombo veio logo em seguida.
Um ponto fundamental para entender a gravidade da situação reside na natureza de onde esse dinheiro estava alocado. Diferente de um empréstimo bancário tradicional para capital de giro, a dívida estava classificada como Títulos e Valores Mobiliários (TVM). Isso significa que o Banco do Brasil detinha papéis de dívida da Braskem, como debêntures, que possuem uma dinâmica contábil diferente.
Como esses títulos são marcados a mercado, a deterioração financeira da Braskem, que atingiu uma alavancagem de 14,8 vezes a sua geração de caixa, fez com que o valor desses papéis derretesse. Diante da incapacidade da petroquímica em honrar os termos desses títulos, o BB foi forçado a realizar uma provisão pesada, reservando do seu próprio lucro o montante necessário para cobrir a perda. Essa manobra “limpa” o balanço para os trimestres seguintes, mas gerou um buraco imediato e visível no resultado operacional do final de 2025.
O movimento mais estratégico revelado durante a divulgação foi a decisão do Banco do Brasil de não carregar esse risco por mais tempo. O banco informou que, logo em janeiro de 2026, optou pela cessão de crédito, vendendo essa dívida inadimplente da Braskem para um fundo especializado em ativos estressados.
O raciocínio por trás disso é claro: ao vender o “mico” para terceiros, o BB remove a volatilidade de suas contas e se protege contra novas pioras judiciais ou geológicas da petroquímica. Embora tenha que aceitar um prejuízo imediato ao vender o título com desconto, o banco garante que o problema não voltará a assombrar seus relatórios em 2026, transferindo para o fundo a tarefa (e o risco) de tentar recuperar algum valor em uma futura reestruturação da empresa.
Por fim, o desenvolvimento de todo esse raciocínio leva a uma conclusão sombria sobre a saúde da Braskem, que passou a ser vista pelo mercado como uma empresa “zumbi”, aquela que gera caixa apenas para tentar rolar os juros de sua dívida, sem nunca conseguir reduzir o saldo principal de US$ 10,9 bilhões.
O calote no Banco do Brasil foi o sinal definitivo de que a estrutura de capital da companhia havia quebrado de forma irreversível sob as atuais condições. Esse cenário de insolvência foi o que motivou a Petrobras a se retirar da linha de frente, abrindo mão do seu direito de preferência para que a gestora IG4 Capital assumisse a liderança de uma tentativa de recuperação extrajudicial. O que o balanço do BB mostrou, portanto, foi o início do fim da atual configuração societária da Braskem, forçando uma faxina contábil que afetou até os maiores bancos do país.
No final de 2025, publiquei um vídeo (link abaixo) alertando sobre a situação crítica da Braskem. Na época, destaquei que o alto endividamento da companhia era um problema extremamente sério. Enquanto muitos analistas recomendavam a compra, mantive meu ceticismo: ativos deteriorados não merecem o capital do investidor.
Assista o video:
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