Por Igor Olandim

Se você já abriu um home broker, certamente notou que os códigos das ações (chamados de tickers) são formados por 4 letras e um número. Essas letras identificam a empresa (PETR para Petrobras, VALE para Vale), mas é o número final que define os seus direitos e deveres como acionista. Aqui está o guia definitivo para você nunca mais se confundir:

Final 3: Ações Ordinárias (ON)

As ações com final 3, conhecidas como Ordinárias (ON), são aquelas que conferem ao investidor o direito a voto nas assembleias da companhia, sendo o perfil ideal para quem deseja atuar como um “sócio de verdade” e ter voz ativa nas decisões estratégicas. A grande vantagem técnica dessa categoria é a proteção do Tag Along de, no mínimo, 80%, que garante ao pequeno investidor o direito de sair do negócio recebendo uma parte justa do valor pago aos controladores caso a empresa seja vendida. No mercado brasileiro, exemplos clássicos desse tipo de papel são as ações da Vale (VALE3), Weg (WEGE3) e Petrobras (PETR3).

Final 4: Ações Preferenciais (PN)

As ações com final 4, denominadas Preferenciais (PN), priorizam o investidor na distribuição de lucros, garantindo preferência no recebimento de dividendos e no reembolso de capital em caso de liquidação da empresa. Elas são o perfil preferido de quem busca renda passiva, pois, embora geralmente não concedam direito a voto, costumam oferecer uma distribuição de proventos ligeiramente superior ou prioritária em relação às ordinárias. Exemplos amplamente negociados no mercado incluem o Itaú Unibanco (ITUB4), a Petrobras (PETR4) e a Gerdau (GGBR4).

Final 11: Units (Pacotes)

Já os ativos com final 11, conhecidos como Units, funcionam como certificados de depósito que representam um “pacote” ou combo de diferentes classes de ações, reunindo papéis ordinários e preferenciais em um único código de negociação. É importante notar que esse final também é utilizado para identificar Fundos Imobiliários (FIIs) e ETFs (como o BOVA11), mas, no caso das ações corporativas, as Units são estratégias das empresas para aumentar a liquidez e facilitar a negociação de seus ativos. Casos comuns de Units no mercado brasileiro são o banco Santander (SANB11) e a Porto Seguro (PSSA11).

As “Classes” de Preferenciais (5, 6, 7 e 8)

As ações identificadas pelos finais 5, 6, 7 e 8 representam diferentes classes de Ações Preferenciais (PNA, PNB, PNC e PND). Elas surgem quando o estatuto de uma empresa define que determinados acionistas terão direitos ou restrições específicas, que vão além da preferência padrão nos dividendos das ações final 4. Na prática, a diferença entre uma classe e outra (como a 5 e a 6) varia de empresa para empresa: em alguns casos, uma classe pode ter direito a um dividendo fixo, enquanto a outra garante um percentual maior sobre o lucro líquido. Embora sejam menos comuns que as tradicionais PN, elas ainda possuem presença relevante na bolsa, com exemplos notáveis como a Usiminas (USIM5) e a Eletrobras (ELET6).

QUAL É A MELHOR?

Para muitos analistas e investidores, o lema “sócio é ON” (ações ordinárias) domina o discurso, mas, para o pequeno investidor, o foco prático costuma ser a liquidez. De fato, se você não possui milhões de reais para influenciar as decisões em uma assembleia, o “direito a voto” das ações final 3 é apenas simbólico. Sob esse ponto de vista, priorizar a liquidez (comum nas ações final 4) é uma decisão racional, pois garante que você consiga entrar e sair do investimento rapidamente, sem sofrer com o spread (diferença de preço entre compra e venda) ou ficar “preso” em um papel que ninguém quer comprar no momento do resgate. Assim, enquanto a proteção do Tag Along é o argumento técnico para as ordinárias, a facilidade de negociação acaba sendo a prioridade real de quem busca agilidade e eficiência no manejo do próprio capital.

POR QUE ALGUNS DEFENDEM AS AÇÕES ORDINÁRIAS

Apesar de a governança ser um tema central no mercado financeiro, o principal argumento para quem prefere as ações com final 3 (ordinárias) é a segurança jurídica em cenários de mudança de controle.

O mecanismo do Tag Along garante por lei que, se a empresa for vendida, os detentores de ações ON recebam no mínimo 80% do valor pago por ação ao bloco controlador, uma proteção que não é obrigatória para as ações PN (embora muitas empresas a estendam voluntariamente via estatuto).

Além disso, o foco nas ordinárias está ligado à governança corporativa, especialmente no segmento do Novo Mercado, onde as empresas são obrigadas a emitir apenas ações ON para alinhar os interesses entre os grandes controladores e os pequenos acionistas, reduzindo possíveis conflitos de gestão.

MINHA OPÇÃO: EQUILIBRIO ENTRE PROTEÇÃO E PRATICIDADE

Para o pequeno investidor, a escolha entre os diferentes finais de ações deve ser pautada pelo equilíbrio entre os direitos teóricos e a realidade do mercado. Embora as ações ordinárias ofereçam a segurança do Tag Along e o simbolismo do voto, e as preferenciais garantam prioridade nos dividendos, existe um fator que muitas vezes supera ambos na prática: a liquidez.

Ter liquidez significa ter a liberdade de sair de um investimento rapidamente e por um preço justo, algo fundamental para o manejo de risco de qualquer carteira individual. Assim, o investidor consciente deve observar os códigos não como uma regra rígida, mas como uma ferramenta para encontrar o ativo que melhor se adapta à sua necessidade de fluxo financeiro e segurança.

Eu prefiro sempre a liquidez.

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